As Famílias do século XXI

A sociedade española experimentou grandes mudanzas demográficas, sociais e económicas nas últimas décadas, passando de ser em 1960 um país pobre para o estándar europeu, políticamente conservador e afastado de seu entorno, socialmente tradicional e católico, com baixos níveis de urbanização e educação, a un país que em 2000 era mais rico do que nunca tinha sido, com uma economia, política e sociedade mais próximas aos padrões europeus, com uma população mais educada, urbana, mundana e consumista, e ideologicamente mais flexível e tolerante, menos tradicional.
Esta evolução teve consequências na instituição familiar. A familia española se encontra numa etapa de profundas transformações, que afetam tanto sua estrutura como a dinâmica interna de relações, processos e papéis que nela se desenvolvem.
Atendendo por uma parte às mudanzas estruturais, podemos observar que se reduziram drasticamente os lares multiplos ou complexos (aqueles em que conviviam distintos núcleos familiares) e que, junto às famílias nucleares tradicionais (um casal e seus filhos/as), tem cada vez mais presença as famílias “pós-nucleares”: uniões não-matrimoniais, casais sem descendêcia, famílias “reconstitudas ou combinadas” (procedentes de uniões anteriores), casais homossexuais e, como consequência destas mudanças, as famílias monoparentais (se constituem a partir da maternidade ou paternidade biológica ou adotiva em solitário, a raíz da morte do cônjuge ou a partir da separação, divórcio ou anulação do vínculo do casal). Estas diferentes circunstâncias genéticas [¿?] não são meras anédotas, mas configuram distintas trajetórias vitais que propiciam um acesso desigual aos privilégios sociais. Dentro das famílias monoparentais, o coletivo de “mães solteiras” apresenta uma série de condições particulares que são o principal objetivo de nossa análise.

Atendendo a dinâmica dos processos e aos papéis que desenvolvem no núcleo familiar, é evidente o crescente acesso de mulheres à educação e ao trabalho remunerado, bem como, a mudança ideológica em que estão apoiados está ocasionando transformações progressivas na dinâmica familiar. Assim os papéis que homens e mulheres desempenham dentro da familia se assemelham, porém a um ritmo mais rápido no âmbito público e a um ritmo mais lento no âmbito privado. No caso particular das “mães solteiras”, existem maiores dificultades no acesso à vida laboral derivadas principalmente da falta de formação e limitações impostas pela carga familiar.

Todas estas mudanças levaram a um novo conceito de familia que poderia definir-se como “um conjunto de pessoas, unidas por relações de afeto e apoio mútuo, comprometidas pessoalmente com um projeto de vida em comum que almeja ser duradouro”. Esta aceitação e reconhecimento de situações familiares e vitais que anteriormente foram rechaçadas hoje estão sendo traduzidas através de um processo de equiparação jurídica tanto aos de distintos tipos de uniões como aos distintos tipos de filiações.
Neste contexto, a situação das “mães solteiras” na Espanha segue ignorada até o ponto de que muitas famílias não são conscientes de que tem os mesmos direitos e as mesmas obrigações que qualquer outro tipo de familia.